terça-feira, 22 de abril de 2025

Promising Young Woman, 2020


Finalmente assisti o "Promising Young Woman" (me recuso a dizer o título traduzido de forma totalmente equivocada), um longa de 2020 estrelado por Carey Mulligan. Dirigido e roteirizado por Emerald Fennell, o filme foi produzido em 2019 e idealizado em 2017, e isso transparece. É um filme bem "pós-Me Too", que foi criticado na época por promover "ódio aos homens". Quatro anos depois, é bem claro que esse filme é inteligente, perspicaz e altamente humano. 

Mesmo podendo caracterizar os grandes vilões do filme (homens) em criaturas abjetas, horrendas, sem nenhum traço de realismo, a obra se nega a fazer isso, optando por expor as fraquezas e sentimentos desses personagens enquanto denuncia os horrores nos quais eles (e todos os homens, e algumas mulheres) participam. Acho que eu deveria contar um pouco da história, mas bem por cima, pois acho que se você, de alguma forma, conseguiu escapar dos detalhes mais sórdidos dele, só assiste e leia o restante do texto depois. Vamos lá

Cassandra (Carey Mulligan) é uma mulher de 30 anos sem muitas perspectivas para o futuro, desde que ela e sua amiga Nina decidiram abandonar o curso de medicina. Ao invés disso, ela passa as noites se fingindo de bêbada em baladas e bares, com a intenção de encontrar homens aproveitadores e ensinar uma ou duas coisinhas sobre consentimento. Ela parece perdida, deprimida e solitária, já que sua amiga Nina (por algum motivo) não parece ter nenhum contato atual com ela, até que se encontra Ryan (Bo Burnham), seu ex-colega de faculdade, que se tornou um pediatra bem sucedido. Os dois desenvolvem uma relação amorosa, mas a ligação de Ryan com outros ex-colegas, que estão envolvidos na situação que provocou a saída de Cassie e Nina da faculdade, pode comprometer o futuro de todo mundo.

SPOILERS

PYW foi vendido como um revenge porn, o que não é. Até a tradução do título do filme, Bela Vingança, faz alusão ao filme Doce Vingança, em que uma mulher sofre violência sexual e decide torturar cada homem envolvido no ato. Qual o público para um filme como esse? Acho que talvez exista uma cartarse em mostrar de forma gráfica e sórdida as torturas pelas quais estupr**ores podem passar, mas o que eleva PYW em relação a esses outros filmes é como mostra que esses atos integram veias pulsantes da sociedade, ligando os homens que realizam esses atos e a sociedade que consente. 

I, Tonya, de 2018

I, Tonya, de 2018, é um desses filmes que mostram como é possível fazer cinema nos tempos modernos. Tanta coisa sobre o estilo dele soa como algo muito do nosso tempo, e mesmo assim, a história consegue ser envolvente para todos os públicos. 

Claro, também foi muita sorte o longa de Craig Gillespie tratar de pessoas que nasceram para serem personagens de filmes. O nível com que conseguem ser abusivos, mentirosos, dissimulados é impressionante, e ainda assim, o filme não julga nenhum deles. Com uma fala da maravilhosa Allison Janney sobre o fato de ter odiado a própria mãe, as ações asquerosas de LaVona podem ser compreendidas, apesar de imperdoáveis.

Jeff, interpretado por Sebastian Stan, praticamente assume o protagonismo do filme durante uns 10 minutos ao mostrar a complexidade de um homem abusivo e totalmente inseguro. Fica bem claro que o ator se aprofundou no personagem, e ficamos com um gostinho de quero mais para entender toda a violência que rompe a imagem de bom moço de Jeff. 

E claro, temos Margot Robbie como Tonya Harding. Não conhecia essa história, mas Tonya parece ter virado a inimiga número 1 de todo o mundo quando sua então amiga, Nancy Harrigan, sofreu um ataque que foi resultado de um plano arquitetado por Jeff, desviado por Shawn (o guarda-costas, interpretado por Paul Walter Hauser, e a pessoa mais fascinante do filme), e com uma participação bem distante de Tonya.

Que Tonya não é inocente nessa história em específico, todo mundo já sabe. Mas infelizmente, a sua pena não foi proporcional ao tamanho de seu envolvimento do ataque, tendo sido banida do mundo da patinação (como ficou claro em uma cena brilhantemente interpretada por Margot).



segunda-feira, 26 de agosto de 2024

A lenda de "Sara": a canção de amor mais enigmática do rock



Em 1979, Fleetwood Mac lançou o disco "Tusk", que seguiu o sucesso monumental "Rumours" (lançado em 1977, mas que ainda perdurava nas paradas de sucesso vendendo como água). O sucessor de "Rumours" foi mais caro, menos lucrativo e mais difícil de ser digerido pelo público. Era de se esperar que, após o apelo global das baladas de pop rock do álbum anterior, todo mundo iria estranhar as nada convencionais ideias e técnicas de gravação de Lindsey Buckingham, que chefiou as gravações com mão de ferro.



Hoje em dia, a reputação do disco é bem melhor. O consenso é que, mesmo não superando "Rumours", o experimentalismo do disco funciona como uma espécie de afirmação da integridade artística da banda: eles não iriam tentar repetir a fórmula. Na minha opinião, a direção de Buckingham é oito ou 80. Algumas das músicas são genuinamente interessantes, enquanto outras soam forçadas. Lindsey tinha por volta de 30 anos quando o álbum foi lançado, o que, para estrelas do rock, deve ser a mesma coisa de 70 anos. Durante todo o álbum, ele acena para a nova geração de músicos do punk e post punk, como se dissesse "tá vendo, galerinha, o tio aqui tá em forma também".

Mas algumas coisas são inegáveis: sua química com Stevie Nicks é inigualável. Em "Sara", Lindsey expande as técnicas de produção usadas em "Rumours", mantendo um instrumental poderoso e luxuoso, de som impecável. Mas algo não é a mesma coisa. "Sara" não é "Dreams" - não é uma música pop convencional te leva em uma jornada de começo, meio e fim. Ao contrário, é uma canção que vai para um lado, para outro, dá meia volta, fecha seus olhos e dá tchau. A parte dos olhos é importante: você não quer ficar de olhos abertos enquanto ouve essa música. Você não vai querer que nada lhe distraia de cada momento. Tudo soa como uma brisa. Quando a música termina, você não sabe para onde ela foi, o que te faz querer repetir tudo de novo e decifrar esse enigma.

Eu amo a letra de "Sara". É uma colagem de frases desconexas da Stevie Nicks, o que é ótimo. Eu amo o modo como ela escreve. Não é para ser entendido de forma direta, à primeira vista. Na verdade, é para você criar a sua própria interpretação com base nas sensações que a letra e a melodia passam. Confia em mim: eu não chamo de poesia qualquer amontoado de frases sem sentido. Ser abstrato por meio das palavras é algo muito difícil, mas ela consegue. Nicks não é uma musicista. Ela não escolhe as palavras para se encaixarem em uma melodia. As palavras são a melodia, e o fato de elas não necessariamente rimarem ou se encaixarem em uma fórmula musical fácil abre espaço para que a composição siga novos caminhos. E isso é perfeito para Buckingham, que conseguia como ninguém ampliar os horizontes dessas composições, tornando elas uma experiência sonora única. 

Aborto, drogas e "trisal": o significado de Sara

É claro que a lenda de "Sara" é muito maior que os méritos artísticos conquistados pela banda. Por ser a composição mais abstrata de Nicks, a música é alvo de especulações que permeiam a mente dos fãs há mais de 40 anos. São várias teorias criadas durante a fase mais turbulenta da banda com a história mais turbulenta do rock. Por trás dos encantamentos de "Sara", há sentimentos muito tristes: incerteza, perda, e não pertencimento. Para mim, sempre soou um pouco como a morte, apesar de eu não ter certeza sob qual prisma seria.

Se eu tiver uma garotinha, vou chamá-la de Sara. É um nome muito especial para mim. Eu amo cantar [a música] no palco. É o ponto alto da minha noite. Existe tanta coisa em "Sara". E é sim a poeta do meu coração, com certeza. - Stevie Nicks, 1979 


Nem a própria Stevie Nicks consegue nos dar um significado concreto para a música. Durante várias entrevistas ao longo dos anos, ela atribuiu a música à toda o momento vivenciado pela banda naquele momento. Lindsey e Stevie se odiavam em 1979. Não é nada fácil compartilhar seu trabalho com a/o ex, ainda mais se o seu ofício é ser uma estrela do pop. Pouco tempo depois do término com o guitarrista em 76, Nicks iniciou um caso com o baterista e fundador da banda, Mick Fleetwood. Mick foi o responsável por colocar a dupla na banda em 74, quando os dois insistiram pela última vez em tentar salvar o relacionamento. Assistindo as performances do grupo, dá mesmo para entender o porquê de Mick e Stevie terem ficado juntos. Eles compartilham a mesma energia teatral, exagerada nas apresentações. E, é claro, os dois se destacam até nas poses das fotos de divulgação. Eles quase a versão do gênero oposto um do outro, e talvez por isso não houve o mesmo caos entre os dois como houve entre Stevie e Lindsey.

No entanto, essa nova paixão teve reviravoltas muito peculiares. Por conta do relacionamento, Mick Fleetwood conheceu uma amiga muito próxima de Stevie, chamada Sara Recor. Em entrevista ao The Independent, Nicks relembra: "eles se apaixonaram, e depois, o marido de Sara me ligou dizendo 'ei, Sara se mudou hoje de manhã para morar com o Mick, achei que você talvez quisesse ficar sabendo'".

"Então eu perdi o Mick, o que, honestamente, não foi algo tão sério, porque era uma relacionamento muito turbulento. Mas perder a minha amiga Sara? Isso foi um grande choque. Sara foi banida do estúdio pelo resto da banda. Ninguém estava se falando, e eu nem olhava diretamente para o Mick. Isso perdurou por meses, e deu bastante material para a gente escrever. As músicas jorraram da gente" - Stevie Nicks, 2011.

Mas outras estrelas estão envolvidas na história dessa música (e outra banda). Stevie teve um relacionamento ainda no final dos anos 70 com o vocalista dos Eagles. Don Henley. A química deles está registrada de forma icônica na canção "Leather and Lace", lançada no álbum solo de Nicks, "Belladonna" (1981). Anos depois de "Sara" estrear nas rádios, Henley contou sua versão sobre a composição:

"Ela deu o nome de Sara à bebê, e ela teve um aborto e escreveu a música de mesmo nome para o espírito do bebê abortado. Eu estava construindo minha casa na época, e tem uma parte na música que fala 'e quando você construir sua casa, me chame'" - Don Henley, 1991.

"Sara" tem tantas camadas. Ela te mantém em transe. É assombrosa e reconfortante ao mesmo tempo, e sempre me faz pensar que há luz na escuridão.



quinta-feira, 7 de setembro de 2023

"Guts" de Olivia Rodrigo mostra evolução da compositora como antropófaga do pop atual

O mundo da música sempre foi conhecido por algo parecido com a antropofagia dos artistas brasileiros do modernismo brasileiro. O que a gente chama de pop desde os anos 60 geralmente tem duas ou mais influências de gêneros embutidas, com o princípio de agradar ao máximo de pessoas possível. Mas como você avalia uma artista como Olivia Rodrigo, que é constantemente remetida a trezentos artistas de diferentes épocas, desde Carole King, Billy Joel, Coutney Love (Hole), Alanis Morissette, Lana del Rey e Taylor Swift?  


Dá um burnout só de pensar. E mesmo assim, os álbuns dela não soam como algo sem foco, ou que atira para todo lado. É, com certeza, um testamento para a ambição dela o fato de ela conseguir se centralizar no meio de todo o excesso de informação musical e entregar algo coeso.




A princesinha da música pop atual acabou de lançar seu segundo álbum de estúdio, GUTS. O sucessor de SOUR é mais direto, rockier, e ganhou pontos comigo por isso. Por mais que a estreia de Olivia Rodrigo tenha ganhado o mundo com as baladas de piano, devo admitir que achei a maioria das músicas bem arrastadas.


Talvez seja só meu gosto pessoal, mas estou convencido de que ela se sai muito melhor quando o assunto são músicas mais uptempo. Ela gosta bastante de rimar e, no caso de baladas lentas, acredito que isso seja um problema. "You be-TRAYED ME, and I know that you’ll never feel sor-RY...", acabei de lembrar como esse refrão é longo, e ainda se repete...ZZzzzZ. Enfim, o fato é que muita gente gosta dessas músicas.


Mas olha como nesse novo álbum o equilíbrio deixa as músicas mais envolventes. O lead single, "Vampire", é um exemplo perfeito disso. Ele vai crescendo junto à performance vocal da cantora, prendendo a atenção do ouvinte.





A grande questão com a Olivia Rodrigo é que ela foi pintada como uma nova Taylor Swift, e isso é claramente um erro. A força da Taylor está na narrativa que ela cria por meio das letras e da melodia. Swift sempre desenha um cenário visual para situar o ouvinte no drama que está sendo relatado, utilizando metáforas ou detalhes específicos. "Driver's License" e "Deja Vu" remetem um pouco à Taylor nesse sentido, já que Rodrigo utiliza um pouco de simbolismo ou referências cotidianas para retratar o fracasso dos relacionamento (o fato de ela estar dirigindo sozinha ou do tal deja vu ser o ex fazendo exatamente as mesmas coisas com a atual dele).


Mas "Good for You", "Brutal" e, francamente, as melhores do debut são simplesmente ela fazendo músicas confessionais, como se a composição fosse a primeira vez que ela estivesse falando tudo aquilo. Talvez seja uma diferença geracional também: Taylor Swift é como aquelas legendas gigantes e poemas aspiracionais do Facebook e do Orkut, enquanto Olivia é como um vídeo de TikTok de 10 segundos. O ponto é que as duas fazem coisas diferentes, e o fato de a Olivia perceber que é muito boa naquilo que a destaca é um bom sinal.


Em "Logical" e em "The Grudge", as únicas baladas realmente lentas do álbum, os versos e o refrão são dinâmicos. "Bad Idea Right", "Get Him Back", "Love is Embarrassing" e "All American Bitch" são o destaque, principalmente a última, que abre o disco. "Pretty isn't Pretty" não é a minha praia (tenho um pouco de ranço de músicas de autoajuda), mas é uma mudança de ritmo interessante no álbum, saindo um pouco da veia pop-punk e entrando mais no pop-rock convencional.





Quem esperava uma referência ao hit de Katy Perry em "Teenage Dream" saiu decepcionado. Porém, a música fecha o álbum encapsulando o direcionamento pessoal e cru do disco. No mais, GUTS é melhor que SOUR. Tenho até medo de como esse comentário vai envelhecer, mas vamos ver. O segundo álbum da cantora é um registro de sua evolução como vocalista e compositora. 


É interessante ver que a Olivia se preocupa de a gente já ter visto o melhor dela na última faixa. Apesar de muito bom, GUTS ainda soa mais como uma promessa de que coisas melhores estão por vir. Eu fico feliz de ela ter mantido o sucesso nesse segundo disco e não ter sido engolida pelo sistema do streaming, lançando qualquer para se manter relevante. Espero que ela se mantenha fazendo música no tempo dela, porque a espera está valendo a pena.


Confira o álbum completo:


sábado, 8 de abril de 2023

Uma mulher sob influência (1974)


Qualquer filme que inicie um debate já tem pontos comigo. Dirigido pelo queridinho indie John Cassavetes, "Uma mulher sob influencia" é um filme cru sobre uma dona de casa e o declínio da sua saúde mental. Ao contrário de outras obras sobre esse tema, o objetivo aqui não é ser um informativo sobre doenças psicológicas, ou até mesmo ser um filme para ajudar pessoas que sofrem com isso. O longa de Cassavetes busca ser um relato o mais realista possível de como um assunto como esse seria abordado na vida real.

Isso, na minha opinião, torna o filme mais interessante, mas entendo que abre margem para várias discussões. A mais intensa ao redor desse filme é sobre até onde a falta de preparo com o qual o marido, Nick (Peter Falk), lida com sua esposa, Mabel (Gena Rowlands), é responsável pela situação da mulher. Vi muitos comentários apontado, inclusive, que ele seria o vilão do filme. Não há dúvidas de que Nick age de forma extremamente violenta e pouco ortodoxa. No entanto, essas reações realmente cabem na narrativa de ser um "pedaço da vida", como reagiria um homem da classe trabalhadora, sem quaisquer informações sobre assuntos relacionados a isso, nos anos 70. 

Os momentos mais angustiantes de "Uma mulher sob influencia" ocorrem nos últimos 40 minutos, quando Mabel sai da clínica de reabilitação e retorna aos braços de sua família. Esse é o momento que eu abro parêntesis para falar um pouco sobre minha vida, mas como entendi esse filme. O que as famílias mais gostam sobre ter uma "pessoa louca" dentro delas é que ela faz cada um se sentir mais normal, mesmo que não sejam. 

Todo mundo sufoca Mabel sobre como ela deve reagir, agir, falar... tudo para que fique mais adequado ao que eles consideram "normal". Até mesmo o único personagem que parece entender de doenças mentais no filme é um completo paspalho. A coitada fica mais perdida do que cego em tiroteio, completamente vazia de identidade, e o único momento em que se reconhece é com os filhos.

 Na verdade, ninguém é normal nesse filme. É de partir o coração, mas bem mais verdadeiro do que a gente pensa. Gena Rowlands é a única coisa que destoa do cinema realista de Cassavettes, porque toda vez que ela aparece você sente que está diante de algo grandioso ocorrendo. Sua atuação é um estudo de como apresentar de forma espontânea um personagem que poderia facilmente cair nos estereótipos. A própria improvisação da atriz casa com a imprevisibilidade da personagem, te levando a se questionar qual fim ela irá levar.

Ela e Peter Falk se complementam na construção de um casal trágico. Não achei Nick odioso. Falk conseguiu reproduzir a angústia e a volatilidade de um amor intenso que vive sobre uma linha tênue entre o romance e a loucura. O filme não nos entrega um sentimentalismo barato ou lições de vida, mas certamente provoca questionamentos. 

Ótimo



sexta-feira, 7 de abril de 2023

"O espelho tem duas faces" e a importância da aparência física


Em 1996, estrearia o último longa de Barbra Streisand como diretora. Com um currículo pequeniníssimo, a cantora e atriz fez história ao ser a primeira mulher a vencer o Globo de Ouro nesta categoria por "Yentl", em 1984. Com essa informação, vocês pensariam que ela foi aclamada, certo? A realidade foi outra. Ao contrário de outros atores que se tornaram diretores, como Robert Redford, o projeto de Barbra foi caracterizado como um grande ato megalomaníaco. O filme foi, inclusive, indicado ao Framboesa de Ouro, uma premiação que hoje em dia a gente já aceitou que foi idealizada por trolls que não servem nem ao mesmo para nomear os piores filmes reais.

Em "O espelho tem duas faces", Barbra retorna como diretora e atriz. O filme não foi lançado sem que críticos denunciassem a repetição de temas da carreira dela. "Barbra vem com mais um filme sobre como ela não se acha bonita. Não era para ela já ter superado?" Nossa, imagina que coisa revoltante, uma artista imprimindo suas experiências pessoas em sua obra! Já havia ficado mais que claro que, infelizmente, Barbra sempre seria subestimada nesse campo  profissional.

Porém, o resultado de mais um "filme sobre como ela não se acha bonita" é uma das comédias românticas mais interessantes dos anos 90. Jeff Bridges (no auge de sua fase "daddy ê lá em casa") interpreta Gregory Larkin, um professor de meia idade que, após decepções amorosas com moças mais jovens e atraentes, decide colocar um anúncio na seção de relacionamentos dos jornais locais para encontrar uma pretendente sem esses atributos. Ele escolhe como candidata perfeita a também professora Rose Morgan (Babs), que está vendo sua irmã Claire (Mimi Rogers) se casar com seu crush de longa data, Alex (Pierce Brosnan). Se Rose parece um peixinho fora d'água até agora nesse mundo de pessoas lindas, para piorar, a mãe dela é ninguém menos que Lauren Bacall. Gregory e Rose se dão bem, mas as expectativas dele de um relacionamento não romântico ou sexual frustra Rosa.

Esse filme podia ser facilmente uma dessas comédias românticas onde a moça fica bonita no final ou o mocinho descobre que aparências não importam. Na verdade, é os dois, mas ao mesmo tempo não é nenhum. Barbra passa por uma transformação carregada de academia, dieta e (claro!) "loirisse". O filme levanta questões sobre como a nossa sociedade é regida pelo culto a beleza, e o impacto disso na vida de quem não segue os padrões. A melhor cena do filme é quando, ao finalmente "ficar bonita", Rose rejeita Alex, que mostrou ser apenas a projeção de todas as inseguranças que havia colecionado ao longo da vida. 

Na verdade, essa é a segunda melhor cena. A melhor mesmo é quando o romance é temporariamente esquecido e Rose e sua mãe têm uma conversa sobre beleza e a disparidade entre as duas. Rose encontra uma foto sua quando bebê e, por ser bonita, imediatamente assume que se trata da sua irmã. É uma cena tocante, sem efeitos melodramáticos ou nada do tipo. Isso é uma marca dos feitos diretoriais de Streisand. Nenhum de seus filmes soam como obras mirabolantes, mas cada um deles possuem um toque sensível, que os eleva de simples exemplos dos gêneros aos quais pertencem.

Temos um final feliz e uma música de Barbra e Bryan Adams para finalizar com chave de ouro. "O espelho tem duas faces" é um filme engraçado e delicado, dotado das melhores características que podem ser encontradas nas comédias românticas dessa época.

quarta-feira, 30 de novembro de 2022

Meu disco do momento: She’s so Unusual (1983), Cyndi Lauper

 

Claro que ela  queria se divertir, mas de uma forma o primeiro álbum da Cyndi Lauper representa algo ainda maior. Contando com 9 faixas (não incluindo o He’s So Unusual), 6 deles que se tornaram hits, She’s So Unusual foi lançado em um período bem estranho da música pop. Em 1983, a explosão musical que foi o New Wave (quando as bandas simplesmente misturaram todos os gêneros dos anos 70: disco, rock, punk, reggae, etc.) estava dando lugar ao mundo mais corporativista que iria dominar o restante da década, e o mundo pop, que estava sendo dominado por homens andrógenos e mulheres de atitude, seria logo preenchido com imitadores do Michael Jackson, Madonna, Whitney e Prince.

Na verdade, o sucesso estrondoso desses artistas, apesar de tudo, teve um impacto negativo na música: o Pop agora virou indústria, e a renovação liderada por artistas seria substituída por agências e empresários movidos pelo dinheiro (não à toa, os anos 90 foram basicamente uma corrida para ver quem vendia 10, 20, 30 milhões de discos). Mas enfim, voltando à 1983, a MTV ainda era um canal iniciante, pouco levado à sério. O mundo da música ainda não sabia por qual direção seguir e, de repente, boooom, Cyndi Lauper.

Extremamente nova iorquina, Cyndi não era só um resultado do que ocorreu no mundo artístico nos seis anos anteriores, mas também de uma geração que cresceu com a televisão, viu as várias revoluções dos anos 60, e ficaram encantadas com as infinitas possibilidades trazidas pela tecnologia. Não havia dúvidas, Cyndi ERA a cultura pop americana. Estrelas de cinema, desenhos animados, bandas de doo-wop, tudo estava estampado nela.

Os singles

Sei que já está muito clichê, mas não dá pra não citar as duas músicas que estão na sua cabeça enquanto você lê esse texto. Em um só álbum, Lauper lançou duas das 15 músicas mais lembradas dos anos 80: Girls Just Wanna Have Fun e Time After Time. A primeira é uma daquelas canções que estão presas no consciente coletivo de todo mundo. Promovido por um dos melhores videoclipe já lançados, o cover da música original de Robert Hazard (que Cyndi re-imaginou tenho certeza que essa palavra não existe, mas enfim para o ponto de vista feminino) é um daqueles hit chicletes que você quer ouvir e ouvir de novo. Um hino, no sentido exato da palavra.

Já a segunda é uma balada poderosa, daquelas que já criam o clima com as primeiras notas. Escrita pela cantora e blabla, foi outro vídeo tocado à exaustão pela MTV. No primeiro vídeo, Cyndi era uma garota “louquinha”, que assumia sua identidade e, no segundo, ela resulta em solidão. Mas a crença de se manter fiel a si mesmo está presente. Tudo era interligado, até a cena em que Cyndi revela seu cabelo ruivo cortado pela metade, para a decepção do seu namorado e divertimento dos amigos. Sei lá, ainda tem algo nessa cena que me arrepia. Como ela mostra que ser fiel a si mesmo vai, sem sombra de dúvidas, causar retaliação e respostas mal intencionadas. Esse é um assunto sensível pra mim.

Mas as minhas favoritas são When You Were MineMoney Changes EverythingShe Bop e All Through the Night. Três das mencionadas foram covers, mas Cyndi elevou o material para outro nível, com a voz potente e a interpretação que dramatiza cada uma delas de forma espetacular. Já She Bop é um dos poucos hits pop sobre masturbação (feminina, inclusive). O vídeo foi o terceiro lançado por Lauper, o que a estabeleceu como uma das artistas mais importantes do inicio da MTV.


Promising Young Woman, 2020

Finalmente assisti o "Promising Young Woman" (me recuso a dizer o título traduzido de forma totalmente equivocada), um longa de 20...