sábado, 26 de novembro de 2016

A Garota Dinamarquesa e o Que Uma História de Quase um Século Tem a Nos Ensinar


Assistindo à The Danish Girl, eu estava devastado quanto ao meu pouco conhecimento em relação à sexualidade e gênero. Bem, eu acho que é para isso que serve o cinema afinal, para quebrar barreiras e abrir mentes. E sim, um filme hollywoodiano e de grande orçamento pode fazer isso. Tenho que admitir que nunca havia ouvido falar nos nomes envolvidos da história. Assim que acabou eu simplesmente precisava ver a história real em que o filme foi baseado. E ela se mostrou ainda mais fascinante!
Bem, o filme conta a história de Einar Wegener, um artista boêmio casado com a igualmente boêmia Gerda, que acaba descobrindo uma mulher dentro de seu corpo. Einar acaba assumindo a identidade de Lili Elbe e, com o apoio de sua, agora ex-esposa, tenta a primeira cirurgia transgenital registrada.
Um certo dia de 1904, uma das modelos de Gerda não apareceu para posar para a pintura, então ela pediu para seu marido assumir o "cargo". Mas o que ela não sabia era que seu marido viria a se tornar Lili. E Lili passaria a ser sua modelo preferida. Por algum motivo, as datas foram mudadas na história do filme, já que este episódio é retratado no filme como se tivesse acontecido nos anos 20. Nos anos 20, Lili já tinha passado mais ou menos 10 dez anos como transsexual, com sua companheira Gerda. As duas viviam em Paris onde Lili se apresentava como a irmã de Einar e Gerda matinha relações com outras mulheres (o que nem chega a ser mencionado no filme). Existem outras diferenças como o homossexual do filme que tem uma breve relação com Lili nunca ter existido, apesar de parecer mais uma forma de ensinar que sexualidade e transexualidade não são a mesma coisa. O amigo de infância de Einar também não está presente na história original. Apesar disso, um personagem importantíssimo que não está presente no filme é Magnus Hirschfeld.

Magnus Hirschfeld
Hirschfeld foi um dos primeiros ativistas pelos direitos LGBT. Seu estudo sobre a sexualidade humana revolucionou a maneira como a homossexualidade era vista, em um tempo onde os próprios homossexuais aceitavam um estilo de vida inferior ao restante da sociedade. Ele que fez a primeira cirurgia em Lili, que tinha como finalidade a retirada dos testículos. Sua revolta com o tratamento dado aos gays da época aumentou quando, ainda jovem, presenciou uma cena bárbara. Um homem, que estava preso em um manicômio por práticas homossexuais, foi posto totalmente pelado em frente aos estudantes da escola de medicina como uma aberração. Em 1919 ele criou o Instituto de Pesquisa Sexual, cujo os livros e os documentos foram totalmente destruídos com a Grande Queima de Livros feita pelos nazistas em 1933.

Pintura de Gerda Wegener com Lili Elbe
Ironicamente foi neste ano que foi lançada a biografia de Lili, Man Into Woman, dois anos depois de sua morte. Em 1930, o caso de Lili já era bem conhecido pelos jornais da Alemanha e Dinamarca. Elbe morreu devido à complicações de sua última cirurgia que tinha como plano o transplante de um útero e a construção de um canal vaginal. Até aquele momento ela estava em um relacionamento com o negociante de arte francês Claude Lejeune.


Quanto ao filme, devo dizer que o sentimento de descobrir uma mulher em si não é muito trabalhado e foi isso que eu senti mais falta. Sendo assim, o destaque do filme realmente são os conflitos que a transexualidade de Lili causa. E isso se deve pelas atuações maravilhosas de Eddie Redmayne (de quem eu não sou muito fã mas tive que tirar o chapéu para ele aqui) e Alicia Vikander (que ganhou o Óscar de Atriz Coadjuvante mesmo sendo uma das protagonistas. Provavelmente porque a concorrência de Melhor Atriz estava muito alta). Os dois dividem uma química incrível, tanto como casal, quanto como amigas. Toda a ambientação da Europa dos anos 20 está perfeita, incluindo os figurinos. A fotografia também é um espetáculo, principalmente a cena final que me fez chorar horrores (estou muito sensível ultimamente). Recomendadíssimo.

NOTA: 4,5 (ÓTIMO)

Dir: Tom Hooper
Gênero: Drama; Biografia
Roteiro de Lucinda Coxon
Música de Alexandre Desplat
Fotografia de Danny Cohen
Elenco: Eddie Redmayne (Einar Wegener - Lili Elbe), Alicia Vikander (Gerda Wegener), Matthias Schoenaerts (Hans Axgil), Amber Heard (Anna Larssen) e Sebastian Koch (Dr. Kurt Warnekros).
Prêmios: Óscar de Melhor Atriz Coadjuvante para Vikander, indicado à Melhor Ator (Redmayne), Melhor Direção de Arte e Melhor Figurino.

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