A frase "sempre interpreta ela mesma" é normalmente usada para definir Katharine Hepburn mas, na minha opinião, também poderia descrever Bette Davis. Suas personagens, boas ou más, sempre foram baseadas no nível de vulnerabilidade (ou da falta dela) necessária para dar força às obras. Está na habilidade de Davis em adaptar, balancear e dosar essa característica que torna ela a coisa mais interessante dos filmes. Bette não chega a se tornar uma atriz do famoso "método" mas suas atuações são movidas por um impulso natural, uma força que transborda da tela, seja no tom da voz, nos maneirismos escolhidos ou no olhar (...she's got Bette Davis eyes...). É impossível não assistir um filme de Bette Davis e não sair da sala de cinema sem pensar nela, um fragmento ou uma cena. Ela se torna o filme e, por isso, se torna insubstituível. Dá pra imaginar outra pessoa dando vida à Margo Channing ou Baby Jane?
Em Dark Victory (1939), Bette interpreta um de seus papéis mais "comuns". Com "comum", leia "personagem feminina mais adequada aos moldes da época". Essa não é uma das anti-heroínas clássicas de Davis, mas suas características ainda são visíveis aqui. Essa é a vantagem de ser deferente das outras, porque você consegue imaginar essa história se tornando um melodrama qualquer na mão de outras atrizes. Mas a inclinação de Davis para papéis menos "femininos" no sentido tradicional dá pathos reais à Judith. Existe uma diferença no modo como ela se sacrifica no início do filme (por egoísmo e medo) e no final. Existe uma construção de caráter, coragem e vulnerabilidade que é impossível não atribuir, até certo ponto, à interpretação da diva. Também tem uma clássica cena "bitchie", onde ela destrói todo mundo com um monólogo (o que, à esse ponto, já virou exigência para qualquer filme que ela atuasse desde Of Human Bondage).
Talvez o modo que eu introduzi este filme não seja correspondente à realidade. Porque, sim, isso é um melodrama, daqueles que vão te deixar com água nos olhos no final. Ainda assim, como eu disse, a personagem principal e a interpretação da atriz tornaram este filme atemporal, que pode ser assistido hoje em dia sem passar a sensação de que estamos diante de uma obra com mais de 80 anos de idade.