quarta-feira, 30 de novembro de 2022

Meu disco do momento: She’s so Unusual (1983), Cyndi Lauper

 

Claro que ela  queria se divertir, mas de uma forma o primeiro álbum da Cyndi Lauper representa algo ainda maior. Contando com 9 faixas (não incluindo o He’s So Unusual), 6 deles que se tornaram hits, She’s So Unusual foi lançado em um período bem estranho da música pop. Em 1983, a explosão musical que foi o New Wave (quando as bandas simplesmente misturaram todos os gêneros dos anos 70: disco, rock, punk, reggae, etc.) estava dando lugar ao mundo mais corporativista que iria dominar o restante da década, e o mundo pop, que estava sendo dominado por homens andrógenos e mulheres de atitude, seria logo preenchido com imitadores do Michael Jackson, Madonna, Whitney e Prince.

Na verdade, o sucesso estrondoso desses artistas, apesar de tudo, teve um impacto negativo na música: o Pop agora virou indústria, e a renovação liderada por artistas seria substituída por agências e empresários movidos pelo dinheiro (não à toa, os anos 90 foram basicamente uma corrida para ver quem vendia 10, 20, 30 milhões de discos). Mas enfim, voltando à 1983, a MTV ainda era um canal iniciante, pouco levado à sério. O mundo da música ainda não sabia por qual direção seguir e, de repente, boooom, Cyndi Lauper.

Extremamente nova iorquina, Cyndi não era só um resultado do que ocorreu no mundo artístico nos seis anos anteriores, mas também de uma geração que cresceu com a televisão, viu as várias revoluções dos anos 60, e ficaram encantadas com as infinitas possibilidades trazidas pela tecnologia. Não havia dúvidas, Cyndi ERA a cultura pop americana. Estrelas de cinema, desenhos animados, bandas de doo-wop, tudo estava estampado nela.

Os singles

Sei que já está muito clichê, mas não dá pra não citar as duas músicas que estão na sua cabeça enquanto você lê esse texto. Em um só álbum, Lauper lançou duas das 15 músicas mais lembradas dos anos 80: Girls Just Wanna Have Fun e Time After Time. A primeira é uma daquelas canções que estão presas no consciente coletivo de todo mundo. Promovido por um dos melhores videoclipe já lançados, o cover da música original de Robert Hazard (que Cyndi re-imaginou tenho certeza que essa palavra não existe, mas enfim para o ponto de vista feminino) é um daqueles hit chicletes que você quer ouvir e ouvir de novo. Um hino, no sentido exato da palavra.

Já a segunda é uma balada poderosa, daquelas que já criam o clima com as primeiras notas. Escrita pela cantora e blabla, foi outro vídeo tocado à exaustão pela MTV. No primeiro vídeo, Cyndi era uma garota “louquinha”, que assumia sua identidade e, no segundo, ela resulta em solidão. Mas a crença de se manter fiel a si mesmo está presente. Tudo era interligado, até a cena em que Cyndi revela seu cabelo ruivo cortado pela metade, para a decepção do seu namorado e divertimento dos amigos. Sei lá, ainda tem algo nessa cena que me arrepia. Como ela mostra que ser fiel a si mesmo vai, sem sombra de dúvidas, causar retaliação e respostas mal intencionadas. Esse é um assunto sensível pra mim.

Mas as minhas favoritas são When You Were MineMoney Changes EverythingShe Bop e All Through the Night. Três das mencionadas foram covers, mas Cyndi elevou o material para outro nível, com a voz potente e a interpretação que dramatiza cada uma delas de forma espetacular. Já She Bop é um dos poucos hits pop sobre masturbação (feminina, inclusive). O vídeo foi o terceiro lançado por Lauper, o que a estabeleceu como uma das artistas mais importantes do inicio da MTV.


quinta-feira, 17 de novembro de 2022

Lembranças de uma madrugada no Gandaia

 O Gandaia é uma boate que fica na linha tênue entre o pop mundial e o pop gay. Algum pop não é gay? Quando eu fui na primeira vez, estava tocando MC tal e sertanejo. Nada contra, mas tem algo na música que me faz recorrer do mundo real. Então ir para um lugar para ouvir o que já está tocando 24 horas e sete dias da semana em todo o Brasil é meio decepcionante.

O pop não é assim. Eu não consigo deixar de intercalar a minha história com as possíveis outras vivências que habitam o Gandaia. Mas é impossível não notar a ironia que é ir a um lugar para dançar músicas que, na sua infância ou adolescência, te causavam vergonha ou era motivo de chacota. “Música de gay”, para não usar outros termos mais ofensivos que já ouvi. Ir para o Gandaia é como permitir à sua criança interior, aquela que você matou para ofertar uma versão mais socialmente aceitável de si mesmo, um sopro da vida.

Quando eu vou, eu vou para as festas da Taylor Swift. Não consigo explicar, mas a gente tem uma ligação. Ela nasceu no dia 13, eu também. Ok, é só isso mesmo e talvez eu esteja forçando, mas sentir uma ligação com toda uma evolução musical que acompanha o seu crescimento é uma experiência única, muito diferente de descobrir ótimas músicas antigas. E o número 13 é o nosso número da sorte (talvez por isso a gente tem tanto azar).

domingo, 6 de novembro de 2022

Mirage (1982)

Mirage (1982) é o 13° disco do Fleetwood Mac. Simbolicamente é o 4°, levando em conta o line up clássico (com Stevie Nicks e Lindsey Buckingham). Se você tem um conhecimento mais que mediano dessa banda, deve saber que o inicio dos anos 80 não foi fácil para nenhum dos integrantes. Todos tiveram que lidar com os excessos do fim da década passada (brigas. drogas, perdas pessoais), além do "fracasso" do sucessor de Rumours, Tusk, que não chegaria a vender 1/10 do hit de 1977. 

A gente se recusa a ir embora

- Lindsey Buckingham, durante show

Mirage traz de volta o grupo ao topo dos charts, mesmo que bem menos inspirado. Isso é até perceptível em algumas das performances ao vivo dessa época, as piores já registradas da banda (de alguma forma, elas são icônicas de tão ruins. Sei lá, é engraçado ver pessoas tão talentosas perdidas no meio do palco, mas indo até o fim). O álbum iniciou muitos dos experimentos bem oitentistas da banda, que viriam a ser aperfeiçoados no Tango in the Night, cinco anos depois. Mesmo assim, esse disco é muito interessante, e vale uma dissecação.



A faixa de abertura é Love in Store, uma das músicas mais pop de Christine Mcvie. Bem inofensiva, na verdade. Mcvie viria a estrear de forma solo dois anos depois, com canções bem melhores no subestimado álbum autointitulado. Sua contribuição no disco é cheia de altos e baixos, contando também com a mais ou menos Only Over You. Ambas as faixas funcionam no contexto do disco, mas sozinhas nem se comparam aos melhores trabalhos da banda. De qualquer forma, Mcvie deixaria uma das mais inspiradas faixas de conclusão de todos os discos do FM: Wish You Were Here. Esqueça o fato de ela ser irmã gêmea do clássico do Pink Floyd. Essa é definitivamente uma das melhores baladas da banda, que não é superada por nenhuma da Mcvie nos álbuns anteriores (não, nem Songbird). Infelizmente, ela não se tornou um single, mas merece ser sempre revisitada.


A visão megalomaníaca de Lindsey Buckingham, o gênio produtor-musicista, faz falta no Mirage. Entre suas faixas, destaco Empire State, a mais "fora da caixinha" do álbum, e com certeza a mais divertida. Infelizmente, Oh Diane, de longe a mais sofrível do disco, foi escolhida como single. Ela e Book of Love são as mais insuportáveis das 12 faixas que completam o álbum. No final, acho Eyes of The World bem agradável. Rumours Rumores indicam que ele meio que fez tudo aqui de má vontade, já que a parte brilhante do seu trabalho está bem presente no disco de estreia, Trouble. Além disso, ele estava se vestindo de Bilbo Bolseiro nessa época... sabe-se lá o porquê. Além de Empire State, Can't Go Back traz umas influências folk bem bacanas, de longe a melhor contribuição de Lindsey.

E vamos de Stevie. Deixei ela para o final porque... se eu disse que os anos 80 não foram fáceis para ninguém do Fleetwood Mac, Nicks foi quem pegou a pior parte. A década seria marcada por perdas de entes queridos e amigos, decisões erradas (como se casar com o pai do filho de sua falecida amiga) e uma batalha contra o vício (primeiro em cocaína e, mais tarde, em remédios). De forma alguma foi uma época de fracassos profissionais para ela: todos os seus discos solos foram consagrados com hits. Em especial, o seu debut: Bella Donna, um clássico do rock feminino. Mas, mesmo observando os trabalhos solos dela, dá pra ver que a musa que já encarnou Rhiannon nos palcos à vida estava meio "murchinha". Até alguns dos clássicos escritos por ela nessa década foram, na verdade, idealizados em seu auge criativo, durante a segunda metade dos anos 70.

gettyimages

Mesmo assim, Stevie ainda está em forma aqui. Não existem dúvidas de que ela é a mais constante entre os seus colegas cantores-compositores. Straight Back pode até não ser um novo Dreams, mas quase nada conseguiria ser. Ainda assim, é um dos grandes pontos emocionais do álbum. Ela também traz suas influências country para That's Alright, uma balada bonita, que dá gosto de ouvir. Não tem como não ficar de luto pela morte da química entre Lindsey e Stevie. Dá pra sentir a falta de sintonia entre os dois, e a gente só pode imaginar o quão melhores essas músicas ficariam caso as chamas daquele amor/ódio ainda estivessem vivas. Porém, mesmo com o fim dessa parceria, após um tumultuado relacionamento e a deterioração da amizade, eles ainda conseguiram nos dar um presente de despedida...


Vou logo dizendo: Gypsy talvez seja a minha música preferida de toda a história dessa banda. Talvez de toda a vida. Ela foi escrita no fim dos anos 70, enquanto Nicks refletia sobre a vida antes da fama. Ela tem essa pegada mesmo, de nostalgia, de memória, de lembrança... mas o que fez a canção finalmente ser lançada em 1982 foi a morte de Robin, a melhor amiga de Nicks. A música é dedicada a ela. A letra é sobre isso: perdas. "Gypsy" significa "cigana", no sentido de uma pessoa que não tem um lugar fixo, relações duradouras, etc. Na minha interpretação, ela é sobre como a vida nos obriga a virar "ciganos": sempre que nos apegamos a algo ou a alguém, ela vem e nos tira. Existe uma melancolia nessa triste certeza, mas também uma espécie de liberdade, algo que nos conforta quando lembramos que nada é para sempre, nem mesmo a dor.

É nisso que a produção de Lindsey acerta. Gypsy me lembra Sara, que se não for a melhor, é a segunda melhor música do Fleetwood Mac. Mas enquanto Sara é mais centrada na saudade que essas perdas nos causam (explícita no desaparecimento lento dos vocais de Stevie enquanto grita "all I ever wanted"), no single de Mirage, um solo de guitarra otimista de Lindsey substitui as reflexões de Nicks sobre os olhos brilhantes da magica. Essa é a magia "Buckingham Nicks" que nunca mais veremos, mas que foi extremamente gratificante enquanto durou.

Gypsy, é claro, é o grande clássico de Mirage. Mas o álbum ainda tem outro grande hit: Hold Me. Escrito por Mcvie, essa é uma canção pop pra ninguém botar defeito, outro ponto alto da colaboração entre a loira e Lindsey. Vou admitir: prefiro Hold Me à Don't Stop. 

Merece destaque também a capa do álbum, que eu acho linda. Mirage pode não ser o melhor álbum do Fleetwood Mac, mas com certeza tem pontos fortes. A crítica mais frequente que eu vejo contra esse disco é o fato de muitos o considerar "esquecível". Mesmo com os defeitos claros, eu ainda gosto dele e de toda essa era. De alguma forma, acho que ela humaniza todos os integrantes da banda, algo essencial para o retorno da banda em Tango in the Night. Bom, acho que é isso por hoje.



terça-feira, 2 de agosto de 2022

Dark Victory (1939)

 A frase "sempre interpreta ela mesma" é normalmente usada para definir Katharine Hepburn mas, na minha opinião, também poderia descrever Bette Davis. Suas personagens, boas ou más, sempre foram baseadas no nível de vulnerabilidade (ou da falta dela) necessária para dar força às obras. Está na habilidade de Davis em adaptar, balancear e dosar essa característica que torna ela a coisa mais interessante dos filmes. Bette não chega a se tornar uma atriz do famoso "método" mas suas atuações são movidas por um impulso natural, uma força que transborda da tela, seja no tom da voz, nos maneirismos escolhidos ou no olhar (...she's got Bette Davis eyes...). É impossível não assistir um filme de Bette Davis e não sair da sala de cinema sem pensar nela, um fragmento ou uma cena. Ela se torna o filme e, por isso, se torna insubstituível. Dá pra imaginar outra pessoa dando vida à Margo Channing ou Baby Jane?

Em Dark Victory (1939), Bette interpreta um de seus papéis mais "comuns". Com "comum", leia "personagem feminina mais adequada aos moldes da época". Essa não é uma das anti-heroínas clássicas de Davis, mas suas características ainda são visíveis aqui. Essa é a vantagem de ser deferente das outras, porque você consegue imaginar essa história se tornando um melodrama qualquer na mão de outras atrizes. Mas a inclinação de Davis para papéis menos "femininos" no sentido tradicional dá pathos reais à Judith. Existe uma diferença no modo como ela se sacrifica no início do filme (por egoísmo e medo) e no final. Existe uma construção de caráter, coragem e vulnerabilidade que é impossível não atribuir, até certo ponto, à interpretação da diva. Também tem uma clássica cena "bitchie", onde ela destrói todo mundo com um monólogo (o que, à esse ponto, já virou exigência para qualquer filme que ela atuasse desde Of Human Bondage).

Talvez o modo que eu introduzi este filme não seja correspondente à realidade. Porque, sim, isso é um melodrama, daqueles que vão te deixar com água nos olhos no final. Ainda assim, como eu disse, a personagem principal e a interpretação da atriz tornaram este filme atemporal, que pode ser assistido hoje em dia sem passar a sensação de que estamos diante de uma obra com mais de 80 anos de idade.

domingo, 5 de junho de 2022

Queerness and Reputation

Reputation (2017) is, undoubtedly, Taylor Swift's most controversial record. Many consider it to be her weakest, with the reception at the time being, as I recall, mostly negative. Yes, there were some people who really listened to the album and gave it a try with an open mind, but the general opinion was that she was trying too hard to be a "pop girl". With 1989, Swift still maintained some of her nice girl persona, dancing awkwardly on the Shake it Off video and being as desexualized as a female artist in the 10s could be. But when she appeared in the Look What You Made Me Do video dancing with gay men, on a top, being "shady" and selling a bad girl image, the audience was not satisfied. Damn, I wasn't satisfied. 


I have been a queer fan of Taylor since I saw a live performance of Should've Said No, probably in 2009. The first era I remember going with her was Speak Now (which is very queer as well, and I may talk about that later), so Taylor was, for me, the imaginative princess of fairytales, keeping fantasy and dreams alive in pop music. LWYMMD was soo not that. It offended me at first because Taylor had committed the terrible crime of acting like any other singer from that era (although, of course, I was also fascinated by the music video, which was A MOMENT). But the more the Reputation era went on, the album just seemed to live in a very short span, with the subsequent singles not living up to the hype of the first video, and the lack of promotion didn't help. Enter the queerness of this album and why it's so important for Taylor's queer fans. 


Reputation is about the realisation you're going to be a disappointment to other people and what you're going to do about that. It's about being victimized and blamed for it, and having your moral values questioned after constant vilification, to the point you're going to question it yourself. And how is that not relatable to a section of the population that suffers from bullying, psychological abuse and physical violence, but is still perceived as the devil? The feelings of betrayal and flirting with your "bad" side is very relatable to me, because when you go through that, you start to be in contempt towards society and people in general. I've seen this behavior in many gay people, and some of them may not even notice. We grow up cold because we think that's the only way for us not to get hurt. No, seriously, gay people need therapy.But there is salvation in Reputation. 


It is also about finding something real behind all that. And that thing is only coming forward when we stop submitting ourselves to society's expectations. That's what Taylor learned and that's what we, queer people, need to understand. It's too easy to "do something bad and feel good", basically because you've been told you're bad unless you stop being yourself. But also, there's nothing wrong with being delicate and wearing your heart on your sleeve. Reputation wasn't a failure, selling 2 million copies in the first week, but it definitely wasn't a success based on Swift's standards (although it should be noted that it was a huge hit, considering the state of the music industry in 2017) and I still see it being referred to as "Taylor's dark age". 


But what saved Swift's album was something as uncommon for artists in this century as hit music videos: a really big world tour. It shows how you can overcome what people expect to succeed and create your own meaning of success that's not based on heteronormative ideals.


West Side Story (2021)


West Side Story é um dos filmes mais icônicos de todos os tempos. São várias cenas que vivem no imaginário coletivo há mais ou menos 60 anos. Está longe de ser perfeito, com algumas das falhas mais destacadas sendo a atuação do casal principal (especialmente a americaníssima Natalie Wood como a porto-riquenha Maria) e a utilização de atores brancos fazendo quase um blackface para fingirem ser latinos. Além disso, West Side Story é um musicalzão, daqueles que se perderam no tempo, daqueles que querem fazer você acreditar que uma gangue de bailarinos poderiam ser assustadores. Acho que também se encaixa no contexto, já que na época as pessoas iam ver espetáculos desse tipo com uma mente mais aberta, pois o Governo dos EUA investia fortemente em produções culturais. Hoje, o balé e musicais só são aceitos se forem super dosados e ainda podem ser considerados "bregas" (a adaptação de musicais como Cats e Dear Evan Hansen também não ajudam).

Mas a verdade é que eu amo esse musical. É tudo muito lindo, a música é incrível e é simplesmente icônico. Lógico que quando eu ouvi que iria sair um remake, fiquei apavorado. A direção é do Steven Spielberg, o que eu devo imaginar que é como um ato de despedida dele. O diretor sempre citou esse como um dos filmes mais importantes para a formação dele como cineasta. A verdade é que o remake/adaptação é bem parecida com o original, "consertando" alguns pontos mencionados mas se mantendo fiel ao texto.

Alguns dos defeitos que eu acredito que o remake traz consigo é um pouco da "modernização" dos personagens. Os Jets sempre foram canalhas, mas na versão de 61 eles eram mais simpáticos, o que fazia com que você se divertisse com eles em músicas como "Jet" e "Officer Krupke". Na última versão, eles estão mais sombrios. Talvez esse seja o objetivo, mas eu acho dificultou um pouco aquela vontade que você tem de se tornar um Jet. Esse mesmo traço é percebido no Tony. Então, o pessoal não gosta muito do ator que interpretou o Tony na versão original. Mas existe algo no otimismo bobo dele, na excitação incomum que fazia você querer torcer por um final feliz. Na versão mais recente, o Tony de Ansel Elgort é mais bad boy mesmo. Ele obviamente tem uma personalidade mais "deprimida", como se estivesse passando por uma crise de consciência. Esse é o objetivo da direção, mas entendam como é difícil você se animar com músicas como "Something's Comming" e "Maria" quando a pessoa que está cantando parece estar tentando se convencer que está sendo otimista (e o Ansel é um bom ator, mas ele ainda não tá "lá"). 

A modernização do filme também segue em outras cenas, como a adaptação de America, que ocorre no primeiro filme em só cenário, como num palco de teatro, aqui vira um passeio dos personagens pelo bairro latino. Não fica ruim, só é estranho para quem está acostumado. Eu diria que as únicas cenas que perdem um pouco da magia é a transição para a cena do baile e o primeiro encontro entre Tony e Maria, no qual continham elementos lúdicos para ilustrar o amor a primeira vista. Na versão mais recente, essas cenas são mostradas de forma normal, o que é meio sem graça, sinceramente. Outra música que perde um pouco da graça (e essa, para mim, é uma ofensa) é a versão quinteto de "Tonight". Eu juro, a primeira vez que ouvi ela no filme quase tive um orgasmo de tão boaa que era. Em 2021, essa música perdeu um pouco da aura operística e grandiosa dela, o que eu acho um defeito porque ela marca a transição do musical para virar uma tragédia.

Algumas cenas que melhoram na versão mais recente é adaptação de "Cool", a briga que resulta na morte de Bernardo e Riff, e em geral, pelo menos ver personagens latinos serem interpretados por atores latinos. Acho que duas mudanças também merecem destaque: existe um personagem no original, chamado "anybodys", que basicamente é uma garota que tenta ser um dos Jets. Se ela é uma lésbica ou um homem trans, isso nunca é mencionado (até porque estamos em 1961), mas eu sempre havia entendido que era uma mulher que simplesmente não queria ser feminina ou como as outras, tanto que eu achava que quando ela era aceita no final do filme pelo Ice, era sugerido que eles iam ficar juntos. Na adaptação desse ano, eles teriam que mudar esse personagem com certeza, então deixaram mais explicito que se trata de um homem trans. Outra mudança marcante foi tirar o personagem Doc e colocar sua esposa no lugar, que é ninguém mais e ninguém menos que Rita Moreno, a Anitta original. As duas alterações foram feita por conta de contexto mesmo, mas acredito que beneficiaram a obra.

West Side Story é sobre como o amor pode ser uma flor que brota no asfalto de uma sociedade marcada pelo preconceito e a luta pelo poder, mas que, assim como a flor, ela será inevitavelmente esmagada pela brutos passos das pessoas que compõem essa sociedade. Críticos têm dito que a adaptação é melhor do que o original, mas a versão original sempre viverá no meu coração. O mais triste do remake é que já estava destinado a não ser tão importante quanto o original, nem atrair multidões e encantar crianças com o maravilhoso poder dos musicais e da dança. Mas como uma boa obra musical, ela certamente entra como um destaque de 2021.

Promising Young Woman, 2020

Finalmente assisti o "Promising Young Woman" (me recuso a dizer o título traduzido de forma totalmente equivocada), um longa de 20...