quinta-feira, 7 de setembro de 2023

"Guts" de Olivia Rodrigo mostra evolução da compositora como antropófaga do pop atual

O mundo da música sempre foi conhecido por algo parecido com a antropofagia dos artistas brasileiros do modernismo brasileiro. O que a gente chama de pop desde os anos 60 geralmente tem duas ou mais influências de gêneros embutidas, com o princípio de agradar ao máximo de pessoas possível. Mas como você avalia uma artista como Olivia Rodrigo, que é constantemente remetida a trezentos artistas de diferentes épocas, desde Carole King, Billy Joel, Coutney Love (Hole), Alanis Morissette, Lana del Rey e Taylor Swift?  


Dá um burnout só de pensar. E mesmo assim, os álbuns dela não soam como algo sem foco, ou que atira para todo lado. É, com certeza, um testamento para a ambição dela o fato de ela conseguir se centralizar no meio de todo o excesso de informação musical e entregar algo coeso.




A princesinha da música pop atual acabou de lançar seu segundo álbum de estúdio, GUTS. O sucessor de SOUR é mais direto, rockier, e ganhou pontos comigo por isso. Por mais que a estreia de Olivia Rodrigo tenha ganhado o mundo com as baladas de piano, devo admitir que achei a maioria das músicas bem arrastadas.


Talvez seja só meu gosto pessoal, mas estou convencido de que ela se sai muito melhor quando o assunto são músicas mais uptempo. Ela gosta bastante de rimar e, no caso de baladas lentas, acredito que isso seja um problema. "You be-TRAYED ME, and I know that you’ll never feel sor-RY...", acabei de lembrar como esse refrão é longo, e ainda se repete...ZZzzzZ. Enfim, o fato é que muita gente gosta dessas músicas.


Mas olha como nesse novo álbum o equilíbrio deixa as músicas mais envolventes. O lead single, "Vampire", é um exemplo perfeito disso. Ele vai crescendo junto à performance vocal da cantora, prendendo a atenção do ouvinte.





A grande questão com a Olivia Rodrigo é que ela foi pintada como uma nova Taylor Swift, e isso é claramente um erro. A força da Taylor está na narrativa que ela cria por meio das letras e da melodia. Swift sempre desenha um cenário visual para situar o ouvinte no drama que está sendo relatado, utilizando metáforas ou detalhes específicos. "Driver's License" e "Deja Vu" remetem um pouco à Taylor nesse sentido, já que Rodrigo utiliza um pouco de simbolismo ou referências cotidianas para retratar o fracasso dos relacionamento (o fato de ela estar dirigindo sozinha ou do tal deja vu ser o ex fazendo exatamente as mesmas coisas com a atual dele).


Mas "Good for You", "Brutal" e, francamente, as melhores do debut são simplesmente ela fazendo músicas confessionais, como se a composição fosse a primeira vez que ela estivesse falando tudo aquilo. Talvez seja uma diferença geracional também: Taylor Swift é como aquelas legendas gigantes e poemas aspiracionais do Facebook e do Orkut, enquanto Olivia é como um vídeo de TikTok de 10 segundos. O ponto é que as duas fazem coisas diferentes, e o fato de a Olivia perceber que é muito boa naquilo que a destaca é um bom sinal.


Em "Logical" e em "The Grudge", as únicas baladas realmente lentas do álbum, os versos e o refrão são dinâmicos. "Bad Idea Right", "Get Him Back", "Love is Embarrassing" e "All American Bitch" são o destaque, principalmente a última, que abre o disco. "Pretty isn't Pretty" não é a minha praia (tenho um pouco de ranço de músicas de autoajuda), mas é uma mudança de ritmo interessante no álbum, saindo um pouco da veia pop-punk e entrando mais no pop-rock convencional.





Quem esperava uma referência ao hit de Katy Perry em "Teenage Dream" saiu decepcionado. Porém, a música fecha o álbum encapsulando o direcionamento pessoal e cru do disco. No mais, GUTS é melhor que SOUR. Tenho até medo de como esse comentário vai envelhecer, mas vamos ver. O segundo álbum da cantora é um registro de sua evolução como vocalista e compositora. 


É interessante ver que a Olivia se preocupa de a gente já ter visto o melhor dela na última faixa. Apesar de muito bom, GUTS ainda soa mais como uma promessa de que coisas melhores estão por vir. Eu fico feliz de ela ter mantido o sucesso nesse segundo disco e não ter sido engolida pelo sistema do streaming, lançando qualquer para se manter relevante. Espero que ela se mantenha fazendo música no tempo dela, porque a espera está valendo a pena.


Confira o álbum completo:


sábado, 8 de abril de 2023

Uma mulher sob influência (1974)


Qualquer filme que inicie um debate já tem pontos comigo. Dirigido pelo queridinho indie John Cassavetes, "Uma mulher sob influencia" é um filme cru sobre uma dona de casa e o declínio da sua saúde mental. Ao contrário de outras obras sobre esse tema, o objetivo aqui não é ser um informativo sobre doenças psicológicas, ou até mesmo ser um filme para ajudar pessoas que sofrem com isso. O longa de Cassavetes busca ser um relato o mais realista possível de como um assunto como esse seria abordado na vida real.

Isso, na minha opinião, torna o filme mais interessante, mas entendo que abre margem para várias discussões. A mais intensa ao redor desse filme é sobre até onde a falta de preparo com o qual o marido, Nick (Peter Falk), lida com sua esposa, Mabel (Gena Rowlands), é responsável pela situação da mulher. Vi muitos comentários apontado, inclusive, que ele seria o vilão do filme. Não há dúvidas de que Nick age de forma extremamente violenta e pouco ortodoxa. No entanto, essas reações realmente cabem na narrativa de ser um "pedaço da vida", como reagiria um homem da classe trabalhadora, sem quaisquer informações sobre assuntos relacionados a isso, nos anos 70. 

Os momentos mais angustiantes de "Uma mulher sob influencia" ocorrem nos últimos 40 minutos, quando Mabel sai da clínica de reabilitação e retorna aos braços de sua família. Esse é o momento que eu abro parêntesis para falar um pouco sobre minha vida, mas como entendi esse filme. O que as famílias mais gostam sobre ter uma "pessoa louca" dentro delas é que ela faz cada um se sentir mais normal, mesmo que não sejam. 

Todo mundo sufoca Mabel sobre como ela deve reagir, agir, falar... tudo para que fique mais adequado ao que eles consideram "normal". Até mesmo o único personagem que parece entender de doenças mentais no filme é um completo paspalho. A coitada fica mais perdida do que cego em tiroteio, completamente vazia de identidade, e o único momento em que se reconhece é com os filhos.

 Na verdade, ninguém é normal nesse filme. É de partir o coração, mas bem mais verdadeiro do que a gente pensa. Gena Rowlands é a única coisa que destoa do cinema realista de Cassavettes, porque toda vez que ela aparece você sente que está diante de algo grandioso ocorrendo. Sua atuação é um estudo de como apresentar de forma espontânea um personagem que poderia facilmente cair nos estereótipos. A própria improvisação da atriz casa com a imprevisibilidade da personagem, te levando a se questionar qual fim ela irá levar.

Ela e Peter Falk se complementam na construção de um casal trágico. Não achei Nick odioso. Falk conseguiu reproduzir a angústia e a volatilidade de um amor intenso que vive sobre uma linha tênue entre o romance e a loucura. O filme não nos entrega um sentimentalismo barato ou lições de vida, mas certamente provoca questionamentos. 

Ótimo



sexta-feira, 7 de abril de 2023

"O espelho tem duas faces" e a importância da aparência física


Em 1996, estrearia o último longa de Barbra Streisand como diretora. Com um currículo pequeniníssimo, a cantora e atriz fez história ao ser a primeira mulher a vencer o Globo de Ouro nesta categoria por "Yentl", em 1984. Com essa informação, vocês pensariam que ela foi aclamada, certo? A realidade foi outra. Ao contrário de outros atores que se tornaram diretores, como Robert Redford, o projeto de Barbra foi caracterizado como um grande ato megalomaníaco. O filme foi, inclusive, indicado ao Framboesa de Ouro, uma premiação que hoje em dia a gente já aceitou que foi idealizada por trolls que não servem nem ao mesmo para nomear os piores filmes reais.

Em "O espelho tem duas faces", Barbra retorna como diretora e atriz. O filme não foi lançado sem que críticos denunciassem a repetição de temas da carreira dela. "Barbra vem com mais um filme sobre como ela não se acha bonita. Não era para ela já ter superado?" Nossa, imagina que coisa revoltante, uma artista imprimindo suas experiências pessoas em sua obra! Já havia ficado mais que claro que, infelizmente, Barbra sempre seria subestimada nesse campo  profissional.

Porém, o resultado de mais um "filme sobre como ela não se acha bonita" é uma das comédias românticas mais interessantes dos anos 90. Jeff Bridges (no auge de sua fase "daddy ê lá em casa") interpreta Gregory Larkin, um professor de meia idade que, após decepções amorosas com moças mais jovens e atraentes, decide colocar um anúncio na seção de relacionamentos dos jornais locais para encontrar uma pretendente sem esses atributos. Ele escolhe como candidata perfeita a também professora Rose Morgan (Babs), que está vendo sua irmã Claire (Mimi Rogers) se casar com seu crush de longa data, Alex (Pierce Brosnan). Se Rose parece um peixinho fora d'água até agora nesse mundo de pessoas lindas, para piorar, a mãe dela é ninguém menos que Lauren Bacall. Gregory e Rose se dão bem, mas as expectativas dele de um relacionamento não romântico ou sexual frustra Rosa.

Esse filme podia ser facilmente uma dessas comédias românticas onde a moça fica bonita no final ou o mocinho descobre que aparências não importam. Na verdade, é os dois, mas ao mesmo tempo não é nenhum. Barbra passa por uma transformação carregada de academia, dieta e (claro!) "loirisse". O filme levanta questões sobre como a nossa sociedade é regida pelo culto a beleza, e o impacto disso na vida de quem não segue os padrões. A melhor cena do filme é quando, ao finalmente "ficar bonita", Rose rejeita Alex, que mostrou ser apenas a projeção de todas as inseguranças que havia colecionado ao longo da vida. 

Na verdade, essa é a segunda melhor cena. A melhor mesmo é quando o romance é temporariamente esquecido e Rose e sua mãe têm uma conversa sobre beleza e a disparidade entre as duas. Rose encontra uma foto sua quando bebê e, por ser bonita, imediatamente assume que se trata da sua irmã. É uma cena tocante, sem efeitos melodramáticos ou nada do tipo. Isso é uma marca dos feitos diretoriais de Streisand. Nenhum de seus filmes soam como obras mirabolantes, mas cada um deles possuem um toque sensível, que os eleva de simples exemplos dos gêneros aos quais pertencem.

Temos um final feliz e uma música de Barbra e Bryan Adams para finalizar com chave de ouro. "O espelho tem duas faces" é um filme engraçado e delicado, dotado das melhores características que podem ser encontradas nas comédias românticas dessa época.

Promising Young Woman, 2020

Finalmente assisti o "Promising Young Woman" (me recuso a dizer o título traduzido de forma totalmente equivocada), um longa de 20...