sábado, 8 de abril de 2023

Uma mulher sob influência (1974)


Qualquer filme que inicie um debate já tem pontos comigo. Dirigido pelo queridinho indie John Cassavetes, "Uma mulher sob influencia" é um filme cru sobre uma dona de casa e o declínio da sua saúde mental. Ao contrário de outras obras sobre esse tema, o objetivo aqui não é ser um informativo sobre doenças psicológicas, ou até mesmo ser um filme para ajudar pessoas que sofrem com isso. O longa de Cassavetes busca ser um relato o mais realista possível de como um assunto como esse seria abordado na vida real.

Isso, na minha opinião, torna o filme mais interessante, mas entendo que abre margem para várias discussões. A mais intensa ao redor desse filme é sobre até onde a falta de preparo com o qual o marido, Nick (Peter Falk), lida com sua esposa, Mabel (Gena Rowlands), é responsável pela situação da mulher. Vi muitos comentários apontado, inclusive, que ele seria o vilão do filme. Não há dúvidas de que Nick age de forma extremamente violenta e pouco ortodoxa. No entanto, essas reações realmente cabem na narrativa de ser um "pedaço da vida", como reagiria um homem da classe trabalhadora, sem quaisquer informações sobre assuntos relacionados a isso, nos anos 70. 

Os momentos mais angustiantes de "Uma mulher sob influencia" ocorrem nos últimos 40 minutos, quando Mabel sai da clínica de reabilitação e retorna aos braços de sua família. Esse é o momento que eu abro parêntesis para falar um pouco sobre minha vida, mas como entendi esse filme. O que as famílias mais gostam sobre ter uma "pessoa louca" dentro delas é que ela faz cada um se sentir mais normal, mesmo que não sejam. 

Todo mundo sufoca Mabel sobre como ela deve reagir, agir, falar... tudo para que fique mais adequado ao que eles consideram "normal". Até mesmo o único personagem que parece entender de doenças mentais no filme é um completo paspalho. A coitada fica mais perdida do que cego em tiroteio, completamente vazia de identidade, e o único momento em que se reconhece é com os filhos.

 Na verdade, ninguém é normal nesse filme. É de partir o coração, mas bem mais verdadeiro do que a gente pensa. Gena Rowlands é a única coisa que destoa do cinema realista de Cassavettes, porque toda vez que ela aparece você sente que está diante de algo grandioso ocorrendo. Sua atuação é um estudo de como apresentar de forma espontânea um personagem que poderia facilmente cair nos estereótipos. A própria improvisação da atriz casa com a imprevisibilidade da personagem, te levando a se questionar qual fim ela irá levar.

Ela e Peter Falk se complementam na construção de um casal trágico. Não achei Nick odioso. Falk conseguiu reproduzir a angústia e a volatilidade de um amor intenso que vive sobre uma linha tênue entre o romance e a loucura. O filme não nos entrega um sentimentalismo barato ou lições de vida, mas certamente provoca questionamentos. 

Ótimo



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