sexta-feira, 7 de abril de 2023

"O espelho tem duas faces" e a importância da aparência física


Em 1996, estrearia o último longa de Barbra Streisand como diretora. Com um currículo pequeniníssimo, a cantora e atriz fez história ao ser a primeira mulher a vencer o Globo de Ouro nesta categoria por "Yentl", em 1984. Com essa informação, vocês pensariam que ela foi aclamada, certo? A realidade foi outra. Ao contrário de outros atores que se tornaram diretores, como Robert Redford, o projeto de Barbra foi caracterizado como um grande ato megalomaníaco. O filme foi, inclusive, indicado ao Framboesa de Ouro, uma premiação que hoje em dia a gente já aceitou que foi idealizada por trolls que não servem nem ao mesmo para nomear os piores filmes reais.

Em "O espelho tem duas faces", Barbra retorna como diretora e atriz. O filme não foi lançado sem que críticos denunciassem a repetição de temas da carreira dela. "Barbra vem com mais um filme sobre como ela não se acha bonita. Não era para ela já ter superado?" Nossa, imagina que coisa revoltante, uma artista imprimindo suas experiências pessoas em sua obra! Já havia ficado mais que claro que, infelizmente, Barbra sempre seria subestimada nesse campo  profissional.

Porém, o resultado de mais um "filme sobre como ela não se acha bonita" é uma das comédias românticas mais interessantes dos anos 90. Jeff Bridges (no auge de sua fase "daddy ê lá em casa") interpreta Gregory Larkin, um professor de meia idade que, após decepções amorosas com moças mais jovens e atraentes, decide colocar um anúncio na seção de relacionamentos dos jornais locais para encontrar uma pretendente sem esses atributos. Ele escolhe como candidata perfeita a também professora Rose Morgan (Babs), que está vendo sua irmã Claire (Mimi Rogers) se casar com seu crush de longa data, Alex (Pierce Brosnan). Se Rose parece um peixinho fora d'água até agora nesse mundo de pessoas lindas, para piorar, a mãe dela é ninguém menos que Lauren Bacall. Gregory e Rose se dão bem, mas as expectativas dele de um relacionamento não romântico ou sexual frustra Rosa.

Esse filme podia ser facilmente uma dessas comédias românticas onde a moça fica bonita no final ou o mocinho descobre que aparências não importam. Na verdade, é os dois, mas ao mesmo tempo não é nenhum. Barbra passa por uma transformação carregada de academia, dieta e (claro!) "loirisse". O filme levanta questões sobre como a nossa sociedade é regida pelo culto a beleza, e o impacto disso na vida de quem não segue os padrões. A melhor cena do filme é quando, ao finalmente "ficar bonita", Rose rejeita Alex, que mostrou ser apenas a projeção de todas as inseguranças que havia colecionado ao longo da vida. 

Na verdade, essa é a segunda melhor cena. A melhor mesmo é quando o romance é temporariamente esquecido e Rose e sua mãe têm uma conversa sobre beleza e a disparidade entre as duas. Rose encontra uma foto sua quando bebê e, por ser bonita, imediatamente assume que se trata da sua irmã. É uma cena tocante, sem efeitos melodramáticos ou nada do tipo. Isso é uma marca dos feitos diretoriais de Streisand. Nenhum de seus filmes soam como obras mirabolantes, mas cada um deles possuem um toque sensível, que os eleva de simples exemplos dos gêneros aos quais pertencem.

Temos um final feliz e uma música de Barbra e Bryan Adams para finalizar com chave de ouro. "O espelho tem duas faces" é um filme engraçado e delicado, dotado das melhores características que podem ser encontradas nas comédias românticas dessa época.

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