segunda-feira, 26 de agosto de 2024

A lenda de "Sara": a canção de amor mais enigmática do rock



Em 1979, Fleetwood Mac lançou o disco "Tusk", que seguiu o sucesso monumental "Rumours" (lançado em 1977, mas que ainda perdurava nas paradas de sucesso vendendo como água). O sucessor de "Rumours" foi mais caro, menos lucrativo e mais difícil de ser digerido pelo público. Era de se esperar que, após o apelo global das baladas de pop rock do álbum anterior, todo mundo iria estranhar as nada convencionais ideias e técnicas de gravação de Lindsey Buckingham, que chefiou as gravações com mão de ferro.



Hoje em dia, a reputação do disco é bem melhor. O consenso é que, mesmo não superando "Rumours", o experimentalismo do disco funciona como uma espécie de afirmação da integridade artística da banda: eles não iriam tentar repetir a fórmula. Na minha opinião, a direção de Buckingham é oito ou 80. Algumas das músicas são genuinamente interessantes, enquanto outras soam forçadas. Lindsey tinha por volta de 30 anos quando o álbum foi lançado, o que, para estrelas do rock, deve ser a mesma coisa de 70 anos. Durante todo o álbum, ele acena para a nova geração de músicos do punk e post punk, como se dissesse "tá vendo, galerinha, o tio aqui tá em forma também".

Mas algumas coisas são inegáveis: sua química com Stevie Nicks é inigualável. Em "Sara", Lindsey expande as técnicas de produção usadas em "Rumours", mantendo um instrumental poderoso e luxuoso, de som impecável. Mas algo não é a mesma coisa. "Sara" não é "Dreams" - não é uma música pop convencional te leva em uma jornada de começo, meio e fim. Ao contrário, é uma canção que vai para um lado, para outro, dá meia volta, fecha seus olhos e dá tchau. A parte dos olhos é importante: você não quer ficar de olhos abertos enquanto ouve essa música. Você não vai querer que nada lhe distraia de cada momento. Tudo soa como uma brisa. Quando a música termina, você não sabe para onde ela foi, o que te faz querer repetir tudo de novo e decifrar esse enigma.

Eu amo a letra de "Sara". É uma colagem de frases desconexas da Stevie Nicks, o que é ótimo. Eu amo o modo como ela escreve. Não é para ser entendido de forma direta, à primeira vista. Na verdade, é para você criar a sua própria interpretação com base nas sensações que a letra e a melodia passam. Confia em mim: eu não chamo de poesia qualquer amontoado de frases sem sentido. Ser abstrato por meio das palavras é algo muito difícil, mas ela consegue. Nicks não é uma musicista. Ela não escolhe as palavras para se encaixarem em uma melodia. As palavras são a melodia, e o fato de elas não necessariamente rimarem ou se encaixarem em uma fórmula musical fácil abre espaço para que a composição siga novos caminhos. E isso é perfeito para Buckingham, que conseguia como ninguém ampliar os horizontes dessas composições, tornando elas uma experiência sonora única. 

Aborto, drogas e "trisal": o significado de Sara

É claro que a lenda de "Sara" é muito maior que os méritos artísticos conquistados pela banda. Por ser a composição mais abstrata de Nicks, a música é alvo de especulações que permeiam a mente dos fãs há mais de 40 anos. São várias teorias criadas durante a fase mais turbulenta da banda com a história mais turbulenta do rock. Por trás dos encantamentos de "Sara", há sentimentos muito tristes: incerteza, perda, e não pertencimento. Para mim, sempre soou um pouco como a morte, apesar de eu não ter certeza sob qual prisma seria.

Se eu tiver uma garotinha, vou chamá-la de Sara. É um nome muito especial para mim. Eu amo cantar [a música] no palco. É o ponto alto da minha noite. Existe tanta coisa em "Sara". E é sim a poeta do meu coração, com certeza. - Stevie Nicks, 1979 


Nem a própria Stevie Nicks consegue nos dar um significado concreto para a música. Durante várias entrevistas ao longo dos anos, ela atribuiu a música à toda o momento vivenciado pela banda naquele momento. Lindsey e Stevie se odiavam em 1979. Não é nada fácil compartilhar seu trabalho com a/o ex, ainda mais se o seu ofício é ser uma estrela do pop. Pouco tempo depois do término com o guitarrista em 76, Nicks iniciou um caso com o baterista e fundador da banda, Mick Fleetwood. Mick foi o responsável por colocar a dupla na banda em 74, quando os dois insistiram pela última vez em tentar salvar o relacionamento. Assistindo as performances do grupo, dá mesmo para entender o porquê de Mick e Stevie terem ficado juntos. Eles compartilham a mesma energia teatral, exagerada nas apresentações. E, é claro, os dois se destacam até nas poses das fotos de divulgação. Eles quase a versão do gênero oposto um do outro, e talvez por isso não houve o mesmo caos entre os dois como houve entre Stevie e Lindsey.

No entanto, essa nova paixão teve reviravoltas muito peculiares. Por conta do relacionamento, Mick Fleetwood conheceu uma amiga muito próxima de Stevie, chamada Sara Recor. Em entrevista ao The Independent, Nicks relembra: "eles se apaixonaram, e depois, o marido de Sara me ligou dizendo 'ei, Sara se mudou hoje de manhã para morar com o Mick, achei que você talvez quisesse ficar sabendo'".

"Então eu perdi o Mick, o que, honestamente, não foi algo tão sério, porque era uma relacionamento muito turbulento. Mas perder a minha amiga Sara? Isso foi um grande choque. Sara foi banida do estúdio pelo resto da banda. Ninguém estava se falando, e eu nem olhava diretamente para o Mick. Isso perdurou por meses, e deu bastante material para a gente escrever. As músicas jorraram da gente" - Stevie Nicks, 2011.

Mas outras estrelas estão envolvidas na história dessa música (e outra banda). Stevie teve um relacionamento ainda no final dos anos 70 com o vocalista dos Eagles. Don Henley. A química deles está registrada de forma icônica na canção "Leather and Lace", lançada no álbum solo de Nicks, "Belladonna" (1981). Anos depois de "Sara" estrear nas rádios, Henley contou sua versão sobre a composição:

"Ela deu o nome de Sara à bebê, e ela teve um aborto e escreveu a música de mesmo nome para o espírito do bebê abortado. Eu estava construindo minha casa na época, e tem uma parte na música que fala 'e quando você construir sua casa, me chame'" - Don Henley, 1991.

"Sara" tem tantas camadas. Ela te mantém em transe. É assombrosa e reconfortante ao mesmo tempo, e sempre me faz pensar que há luz na escuridão.



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