O mundo da música sempre foi conhecido por algo parecido com a antropofagia dos artistas brasileiros do modernismo brasileiro. O que a gente chama de pop desde os anos 60 geralmente tem duas ou mais influências de gêneros embutidas, com o princípio de agradar ao máximo de pessoas possível. Mas como você avalia uma artista como Olivia Rodrigo, que é constantemente remetida a trezentos artistas de diferentes épocas, desde Carole King, Billy Joel, Coutney Love (Hole), Alanis Morissette, Lana del Rey e Taylor Swift?
Dá um burnout só de pensar. E mesmo assim, os álbuns dela não soam como algo sem foco, ou que atira para todo lado. É, com certeza, um testamento para a ambição dela o fato de ela conseguir se centralizar no meio de todo o excesso de informação musical e entregar algo coeso.
A princesinha da música pop atual acabou de lançar seu segundo álbum de estúdio, GUTS. O sucessor de SOUR é mais direto, rockier, e ganhou pontos comigo por isso. Por mais que a estreia de Olivia Rodrigo tenha ganhado o mundo com as baladas de piano, devo admitir que achei a maioria das músicas bem arrastadas.
Talvez seja só meu gosto pessoal, mas estou convencido de que ela se sai muito melhor quando o assunto são músicas mais uptempo. Ela gosta bastante de rimar e, no caso de baladas lentas, acredito que isso seja um problema. "You be-TRAYED ME, and I know that you’ll never feel sor-RY...", acabei de lembrar como esse refrão é longo, e ainda se repete...ZZzzzZ. Enfim, o fato é que muita gente gosta dessas músicas.
Mas olha como nesse novo álbum o equilíbrio deixa as músicas mais envolventes. O lead single, "Vampire", é um exemplo perfeito disso. Ele vai crescendo junto à performance vocal da cantora, prendendo a atenção do ouvinte.
A grande questão com a Olivia Rodrigo é que ela foi pintada como uma nova Taylor Swift, e isso é claramente um erro. A força da Taylor está na narrativa que ela cria por meio das letras e da melodia. Swift sempre desenha um cenário visual para situar o ouvinte no drama que está sendo relatado, utilizando metáforas ou detalhes específicos. "Driver's License" e "Deja Vu" remetem um pouco à Taylor nesse sentido, já que Rodrigo utiliza um pouco de simbolismo ou referências cotidianas para retratar o fracasso dos relacionamento (o fato de ela estar dirigindo sozinha ou do tal deja vu ser o ex fazendo exatamente as mesmas coisas com a atual dele).
Mas "Good for You", "Brutal" e, francamente, as melhores do debut são simplesmente ela fazendo músicas confessionais, como se a composição fosse a primeira vez que ela estivesse falando tudo aquilo. Talvez seja uma diferença geracional também: Taylor Swift é como aquelas legendas gigantes e poemas aspiracionais do Facebook e do Orkut, enquanto Olivia é como um vídeo de TikTok de 10 segundos. O ponto é que as duas fazem coisas diferentes, e o fato de a Olivia perceber que é muito boa naquilo que a destaca é um bom sinal.
Em "Logical" e em "The Grudge", as únicas baladas realmente lentas do álbum, os versos e o refrão são dinâmicos. "Bad Idea Right", "Get Him Back", "Love is Embarrassing" e "All American Bitch" são o destaque, principalmente a última, que abre o disco. "Pretty isn't Pretty" não é a minha praia (tenho um pouco de ranço de músicas de autoajuda), mas é uma mudança de ritmo interessante no álbum, saindo um pouco da veia pop-punk e entrando mais no pop-rock convencional.
Quem esperava uma referência ao hit de Katy Perry em "Teenage Dream" saiu decepcionado. Porém, a música fecha o álbum encapsulando o direcionamento pessoal e cru do disco. No mais, GUTS é melhor que SOUR. Tenho até medo de como esse comentário vai envelhecer, mas vamos ver. O segundo álbum da cantora é um registro de sua evolução como vocalista e compositora.
É interessante ver que a Olivia se preocupa de a gente já ter visto o melhor dela na última faixa. Apesar de muito bom, GUTS ainda soa mais como uma promessa de que coisas melhores estão por vir. Eu fico feliz de ela ter mantido o sucesso nesse segundo disco e não ter sido engolida pelo sistema do streaming, lançando qualquer para se manter relevante. Espero que ela se mantenha fazendo música no tempo dela, porque a espera está valendo a pena.
Confira o álbum completo:



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