Mirage (1982) é o 13° disco do Fleetwood Mac. Simbolicamente é o 4°, levando em conta o line up clássico (com Stevie Nicks e Lindsey Buckingham). Se você tem um conhecimento mais que mediano dessa banda, deve saber que o inicio dos anos 80 não foi fácil para nenhum dos integrantes. Todos tiveram que lidar com os excessos do fim da década passada (brigas. drogas, perdas pessoais), além do "fracasso" do sucessor de Rumours, Tusk, que não chegaria a vender 1/10 do hit de 1977.
A gente se recusa a ir embora
- Lindsey Buckingham, durante show
Mirage traz de volta o grupo ao topo dos charts, mesmo que bem menos inspirado. Isso é até perceptível em algumas das performances ao vivo dessa época, as piores já registradas da banda (de alguma forma, elas são icônicas de tão ruins. Sei lá, é engraçado ver pessoas tão talentosas perdidas no meio do palco, mas indo até o fim). O álbum iniciou muitos dos experimentos bem oitentistas da banda, que viriam a ser aperfeiçoados no Tango in the Night, cinco anos depois. Mesmo assim, esse disco é muito interessante, e vale uma dissecação.
A faixa de abertura é Love in Store, uma das músicas mais pop de Christine Mcvie. Bem inofensiva, na verdade. Mcvie viria a estrear de forma solo dois anos depois, com canções bem melhores no subestimado álbum autointitulado. Sua contribuição no disco é cheia de altos e baixos, contando também com a mais ou menos Only Over You. Ambas as faixas funcionam no contexto do disco, mas sozinhas nem se comparam aos melhores trabalhos da banda. De qualquer forma, Mcvie deixaria uma das mais inspiradas faixas de conclusão de todos os discos do FM: Wish You Were Here. Esqueça o fato de ela ser irmã gêmea do clássico do Pink Floyd. Essa é definitivamente uma das melhores baladas da banda, que não é superada por nenhuma da Mcvie nos álbuns anteriores (não, nem Songbird). Infelizmente, ela não se tornou um single, mas merece ser sempre revisitada.
A visão megalomaníaca de Lindsey Buckingham, o gênio produtor-musicista, faz falta no Mirage. Entre suas faixas, destaco Empire State, a mais "fora da caixinha" do álbum, e com certeza a mais divertida. Infelizmente, Oh Diane, de longe a mais sofrível do disco, foi escolhida como single. Ela e Book of Love são as mais insuportáveis das 12 faixas que completam o álbum. No final, acho Eyes of The World bem agradável. Rumours Rumores indicam que ele meio que fez tudo aqui de má vontade, já que a parte brilhante do seu trabalho está bem presente no disco de estreia, Trouble. Além disso, ele estava se vestindo de Bilbo Bolseiro nessa época... sabe-se lá o porquê. Além de Empire State, Can't Go Back traz umas influências folk bem bacanas, de longe a melhor contribuição de Lindsey.
E vamos de Stevie. Deixei ela para o final porque... se eu disse que os anos 80 não foram fáceis para ninguém do Fleetwood Mac, Nicks foi quem pegou a pior parte. A década seria marcada por perdas de entes queridos e amigos, decisões erradas (como se casar com o pai do filho de sua falecida amiga) e uma batalha contra o vício (primeiro em cocaína e, mais tarde, em remédios). De forma alguma foi uma época de fracassos profissionais para ela: todos os seus discos solos foram consagrados com hits. Em especial, o seu debut: Bella Donna, um clássico do rock feminino. Mas, mesmo observando os trabalhos solos dela, dá pra ver que a musa que já encarnou Rhiannon nos palcos à vida estava meio "murchinha". Até alguns dos clássicos escritos por ela nessa década foram, na verdade, idealizados em seu auge criativo, durante a segunda metade dos anos 70.
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Mesmo assim, Stevie ainda está em forma aqui. Não existem dúvidas de que ela é a mais constante entre os seus colegas cantores-compositores. Straight Back pode até não ser um novo Dreams, mas quase nada conseguiria ser. Ainda assim, é um dos grandes pontos emocionais do álbum. Ela também traz suas influências country para That's Alright, uma balada bonita, que dá gosto de ouvir. Não tem como não ficar de luto pela morte da química entre Lindsey e Stevie. Dá pra sentir a falta de sintonia entre os dois, e a gente só pode imaginar o quão melhores essas músicas ficariam caso as chamas daquele amor/ódio ainda estivessem vivas. Porém, mesmo com o fim dessa parceria, após um tumultuado relacionamento e a deterioração da amizade, eles ainda conseguiram nos dar um presente de despedida...
Vou logo dizendo: Gypsy talvez seja a minha música preferida de toda a história dessa banda. Talvez de toda a vida. Ela foi escrita no fim dos anos 70, enquanto Nicks refletia sobre a vida antes da fama. Ela tem essa pegada mesmo, de nostalgia, de memória, de lembrança... mas o que fez a canção finalmente ser lançada em 1982 foi a morte de Robin, a melhor amiga de Nicks. A música é dedicada a ela. A letra é sobre isso: perdas. "Gypsy" significa "cigana", no sentido de uma pessoa que não tem um lugar fixo, relações duradouras, etc. Na minha interpretação, ela é sobre como a vida nos obriga a virar "ciganos": sempre que nos apegamos a algo ou a alguém, ela vem e nos tira. Existe uma melancolia nessa triste certeza, mas também uma espécie de liberdade, algo que nos conforta quando lembramos que nada é para sempre, nem mesmo a dor.
É nisso que a produção de Lindsey acerta. Gypsy me lembra Sara, que se não for a melhor, é a segunda melhor música do Fleetwood Mac. Mas enquanto Sara é mais centrada na saudade que essas perdas nos causam (explícita no desaparecimento lento dos vocais de Stevie enquanto grita "all I ever wanted"), no single de Mirage, um solo de guitarra otimista de Lindsey substitui as reflexões de Nicks sobre os olhos brilhantes da magica. Essa é a magia "Buckingham Nicks" que nunca mais veremos, mas que foi extremamente gratificante enquanto durou.
Gypsy, é claro, é o grande clássico de Mirage. Mas o álbum ainda tem outro grande hit: Hold Me. Escrito por Mcvie, essa é uma canção pop pra ninguém botar defeito, outro ponto alto da colaboração entre a loira e Lindsey. Vou admitir: prefiro Hold Me à Don't Stop.
Merece destaque também a capa do álbum, que eu acho linda. Mirage pode não ser o melhor álbum do Fleetwood Mac, mas com certeza tem pontos fortes. A crítica mais frequente que eu vejo contra esse disco é o fato de muitos o considerar "esquecível". Mesmo com os defeitos claros, eu ainda gosto dele e de toda essa era. De alguma forma, acho que ela humaniza todos os integrantes da banda, algo essencial para o retorno da banda em Tango in the Night. Bom, acho que é isso por hoje.





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