domingo, 10 de setembro de 2017

As Mulheres/The Women (1939)


É incrível como nossa visão sobre algumas coisas mudam quando passamos à refletir sobre elas. Na primeira vez que vi As Mulheres/The Women, eu senti que, apesar de ter me divertido muito, era um filme extremamente machista. Minha primeira visão sobre o filme foi:
"Mulheres apaixonadas não podem se dar o luxo de terem orgulho". Mas os homens certamente podem. Essa frase é dita por Mary Haines (Norma Shearer), quando esta sai correndo aos braços do seu amor, Stephen, o mesmo cara que a traiu, mentiu e indiretamente humilhou ela perante à sociedade. Mesmo depois de tudo isso, ele não se deu nem ao trabalho de procurar a ex-mulher. Ao contrário, ele estava esperando ela porque ele tinha o direito a ser orgulhoso. Mesmo depois de toda a m*rda que ele fez. O problema não é ela o perdoar por ter a traído, não existe problema nenhum disso. Mas o modo como fazem Mary ser a culpada disso tudo é horrível. E quando ele se casa com a então amante dele, todas as mulheres ficam com pena porque a nova esposa é uma vadia. Tadinho!
O filme é baseado na peça de mesmo nome, escrita por Clare Boothe Luce. E a personalidade dela mostra um pouco sobre a história. Era uma republicana, anti-comunista de carteirinha, que acreditava que o sonho de toda mulher é ter um homem que desse à ela "bebês e segurança". Mas a vida dela não foi realmente a de uma dona de casa ordinária. Na verdade, ela veio de uma origem humilde e, por conta própria, se tornou uma editora, escritora e dramaturga bem sucedida.
Esse tipo de ironia é encontrado no próprio filme. Disfarçado como um conto sobre a prevalência do amor sobre o orgulho, é, na verdade uma crítica feroz ao comodismo quanto aos papéis em que as mulheres estão destinadas a ter. Muito entediadas para fazer algo que não seja fofocar, mas muito assustadas com a reputação para questionarem as atitudes dos maridos, o filme é na verdade um pouco depressivo se pensar bem. Isso pode confundir muitas pessoas (como me confundiu). George Cukor mostrando como todos os homens são cachorros mas ao mesmo tempo mandou as mulheres de volta à eles como se fosse o certo. Outro aspecto da história é que: quando os homens se separam, podem simplesmente se juntar com a mulher que eles desejavam. Já as mulheres teriam que ir à Reno, uma cidade pacata e caipira, onde iriam se lamentar por serem mal-amadas.
O filme tem sido adorado pela comunidade gay pelas personagens bitchies (especialmente Joan Crawford e a maravilhosa Rosalind Russel) mas a verdade é que elas são bem covardes e fracas. É disso que o filme essencialmente ri. Dessas mulheres manipuláveis e alienadas, que são nojentas umas com as outras porque não podem ser com quem merece, os seus homens. É um pouco sombrio, eu sei. Mas o filme nos faz sensibilizar com essa total falta de perspectivas da mulheres dos anos 30. Não é o filme mais empoderador sobre o tema, mas é o mais engraçado.

Melhor cena: Rosalind Russel, no auge da sua comicidade, enlouquecendo.

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